Muito embora os Mutantes tenham ilustrado o título desse blog - que pretende ser muito além (mas também) de um espaço para confissões de adolescente, um lugar de divagações sobre os indivíduos e suas manifestações, delírios, invenções e pulsões - abrirei as postagens com textos profundos de Eduardo Galeano:
"Delmira
A este quarto ela foi chamada pelo homem que tinha sido seu marido; e querendo tê-la, ele amou-a e matou-a e se matou.
Os jornais uruguaios de 1914 publicaram a foto do corpo que jaz(z) tombado junto à cama, Delmira abatida por dois tiros de revolver, nua como seus poemas, as meias caídas, toda despida de vermelho:
- Vamos mais longe na noite, vamos...
Delmira Agustini escrevia em transe. Tinha cantado as febres do amor sem disfarces pacatos, e tinha sido condenada pelos que castigam nas mulheres o que nos homens aplaudem, porque a castidade é dever feminino, e o desejo, como a razão, um privilégio masculino. No Uruguai, as leis caminham na frente das pessoas, que ainda separam a alma do corpo como se fossem a Bela e a Fera. De maneira que perante o cadáver de Delmira se derramam lágrimas e frases a propósito de tão sensível perda para as letras nacionais, mas no fundo os chorosos suspiram com alívio - a morta morta está, e é melhor assim.
Mas, morta está? Não serão sombra de sua voz e eco de seu corpo todos os amantes que ardem nas noites do mundo? Não lhe abrirão um lugarzinho nas noites do mundo para que cante sua boca desatada e dancem seus pés resplandecentes?"
E mais:
"Cultura do Terror/4
A extorsão,
o insulto,
a ameaça,
o cascudo,
a bofetada,
a surra,
o açoite,
o quarto escuro,
a ducha gelada,
o jejum obrigatório,
a comida obrigatória,
a proibição de sair,
a proibição de se dizer o que se pensa,
a proibição de fazer o que se sente,
e a humilhação pública
são alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais na vida da família. Para castigo à desobediência e exemplo de liberdade, a tradição familiar perpetua uma cultura do terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e contagia tudo com a peste do medo.
- Os direitos humanos deveriam começar em casa- comenta comigo, no Chile, Andrés Domingues"
Corta-se, assim, a fitinha vermelha da inauguração e do cabelo. Está na hora de deixar o cabelo crescer!
Até mais!
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
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3 comentários:
Grande Galeano...
Muito bom o texto Carol, mandar uma poesia em homenagem a ele, o autor é um cara aí... que não sabe escrever euheue... bjus
Um homem?
O tempo para ele parou
Suas qualidades são as mesmas
De menino ele não passou.
Orgulhoso de sua estética
Frustrado com sua mente
Ele não cresceu
Seu pequeno mundo era o mesmo
Já era tarde quando ele percebeu.
Devemos evoluir
Aprender a viver
Esse homem morreu menino
Nada fez, quando poderia fazer.
Agora espero as suas produções!!!
mostre o seu coração, escreva!
beijos!
to me decidindo
não sou que pensa que és
nem respondo o enigma
a esfinge já o fez
sangra os amantes
por não saber
por sentir
e desejar
a maça
talvez
dúvida
seja
dádiva
perdida
que achei
sonhei assim
tristes despedidas
prometo voltar... adeus
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