sexta-feira, 5 de outubro de 2007

"COMER ANTHONY hamBURGER COM SUCO DE LARANJA MECÂNICA"

Caros leitores e membros do júri. Perdão. Esse blog não conseguirá ser contínuo.



Dito isso, o caso de hoje perpassa pela leveza do dia.

Ontem (e não posso deixar de mencionar isso) senti "aquele" gosto de morte por conta do falecimento da Maíra. Uma infelicidade chocante que deixou a atmosfera cinzenta, tal qual chumbo diluído no ar.
Porém como período de pós-drama, hoje seguiu-se um dia de tranquilidade.



Este relato já preencheu os ouvidos de alguns pacientes amigos que cruzaram meu dia. A vocês, peço desculpa pela repetição.

De repente eu me pego num canto escondido do restaurante, lendo algumas páginas de fluida narração de nossa ninfeta-fundamental, Lolita. Não sei se foi o texto ou se foi essa atmosfera pós-drama, mas tudo começou a passar diante dos meus olhos como aqueles filmes que exibem um inerente romantismo presente no cotidiano das pessoas. A partir daí meus movimentos foram tomados pelo vento das minhas sensações. Enquanto voltava pra UFSC tomei caminhos diversos e depois de escutar um triste relato sobre um UFSCão, fui parar no CFH. Enquanto caminhava em direção à Sala José Saramago, fui seduzida por um cartaz cheio de desenhos, cujo centro pintava o título do trabalho "Cheguedali". Parei e percebi que havia uma pessoa rabiscando num papel. Então a curiosidade latente manifestou e perguntei, afinal, qual o sentido daquilo. Como resposta tive um rosto de singela expressão e a explicação de que aquilo ali era um painel de exposição para que os transeuntes interessados pudessem imprimir suas marcas pessoais sob pinceladas coloridas. O tema era livre. No final de sua explicação, então, recebi o convite para pincelar alguma coisa e, sim, aceitei.
Enquanto pintava qualquer coisa sobre a Lo-li-ta ( meu desenho nonsense foi em homenagem à amante de dourados pêlos do caríssimo Humbert Humbert), o autor da idéia cheguedaliense, declamou versos, cantou e tocou Cartola e no final disso tudo, e creio por culpa do Kubric, escrevi numa segunda-folha a seguinte frase: "Comer Anthony hamBurger com Suco de Laranja Mecânica". Foi engraçado e por isso celebramos o momento tomando suco de laranja. E ponto.

Bem, esse relato pode parecer bobinho, ingênuo ou até mesmo tosco, mas o fato de ficar ali sentadinha na grama, descarregando minha imaginação na apetitosa folha em branco, abriu um parênteses no meu dia, na minha semana, nos últimos tempos. Uma pequenina fenda atemporal no meio dessa correria que a vida moderna nos impõe. Diria mais, diria que valeu mais que qualquer sessão-terapia numa sala trancafiada no meio do caos de concreto dessas urbes imundas. E diria mais um pouco. Diria que é esquisito e entristecedor perceber como as pessoas, de um modo geral, só sentem essa sensação de alívio-purificação em situações e ambientes convecionadamente prontos para tal. São os shoppings, as festas-barulhentas, os restaurantes de merda-comestível, os consultórios da psiquiatria-do-prozac, as academias de músculos-atômicos e por aí vai numa padronagem em série e sem fim do prazer e do lazer.

Por fim, meus senhores, termino esse post sem grã finale, apenas afirmando que hoje foi bom viver. Sem sentido mas de coração.