sábado, 3 de novembro de 2007

A VALSA


A valsa

Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...

Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!

Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!

Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!

Casimiro de Abreu

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

"COMER ANTHONY hamBURGER COM SUCO DE LARANJA MECÂNICA"

Caros leitores e membros do júri. Perdão. Esse blog não conseguirá ser contínuo.



Dito isso, o caso de hoje perpassa pela leveza do dia.

Ontem (e não posso deixar de mencionar isso) senti "aquele" gosto de morte por conta do falecimento da Maíra. Uma infelicidade chocante que deixou a atmosfera cinzenta, tal qual chumbo diluído no ar.
Porém como período de pós-drama, hoje seguiu-se um dia de tranquilidade.



Este relato já preencheu os ouvidos de alguns pacientes amigos que cruzaram meu dia. A vocês, peço desculpa pela repetição.

De repente eu me pego num canto escondido do restaurante, lendo algumas páginas de fluida narração de nossa ninfeta-fundamental, Lolita. Não sei se foi o texto ou se foi essa atmosfera pós-drama, mas tudo começou a passar diante dos meus olhos como aqueles filmes que exibem um inerente romantismo presente no cotidiano das pessoas. A partir daí meus movimentos foram tomados pelo vento das minhas sensações. Enquanto voltava pra UFSC tomei caminhos diversos e depois de escutar um triste relato sobre um UFSCão, fui parar no CFH. Enquanto caminhava em direção à Sala José Saramago, fui seduzida por um cartaz cheio de desenhos, cujo centro pintava o título do trabalho "Cheguedali". Parei e percebi que havia uma pessoa rabiscando num papel. Então a curiosidade latente manifestou e perguntei, afinal, qual o sentido daquilo. Como resposta tive um rosto de singela expressão e a explicação de que aquilo ali era um painel de exposição para que os transeuntes interessados pudessem imprimir suas marcas pessoais sob pinceladas coloridas. O tema era livre. No final de sua explicação, então, recebi o convite para pincelar alguma coisa e, sim, aceitei.
Enquanto pintava qualquer coisa sobre a Lo-li-ta ( meu desenho nonsense foi em homenagem à amante de dourados pêlos do caríssimo Humbert Humbert), o autor da idéia cheguedaliense, declamou versos, cantou e tocou Cartola e no final disso tudo, e creio por culpa do Kubric, escrevi numa segunda-folha a seguinte frase: "Comer Anthony hamBurger com Suco de Laranja Mecânica". Foi engraçado e por isso celebramos o momento tomando suco de laranja. E ponto.

Bem, esse relato pode parecer bobinho, ingênuo ou até mesmo tosco, mas o fato de ficar ali sentadinha na grama, descarregando minha imaginação na apetitosa folha em branco, abriu um parênteses no meu dia, na minha semana, nos últimos tempos. Uma pequenina fenda atemporal no meio dessa correria que a vida moderna nos impõe. Diria mais, diria que valeu mais que qualquer sessão-terapia numa sala trancafiada no meio do caos de concreto dessas urbes imundas. E diria mais um pouco. Diria que é esquisito e entristecedor perceber como as pessoas, de um modo geral, só sentem essa sensação de alívio-purificação em situações e ambientes convecionadamente prontos para tal. São os shoppings, as festas-barulhentas, os restaurantes de merda-comestível, os consultórios da psiquiatria-do-prozac, as academias de músculos-atômicos e por aí vai numa padronagem em série e sem fim do prazer e do lazer.

Por fim, meus senhores, termino esse post sem grã finale, apenas afirmando que hoje foi bom viver. Sem sentido mas de coração.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Reflexões acerca do mundinho Juridiquês!

Já que o blog nem nasceu e já está quase morrendo, cá estou eu pra redimir seus pecados e ressuscitá-lo das trevas do esquecimento e da falta de tempo.

Os versinhos de hoje são de minha autoria. São versinhos que brotaram das mais diversas situações, como palestras de juízes, depoimentos de orkut e estudos madrugais.



"E pelos (des)caminhos da vida
Um dia um certo alguém escolheu dar a contrapartida
E por acreditar na justiça do velho Direito
Resolveu estudar e se frustrar com seus dogmas malfeitos

Descobriu que os tribunais são cheios de pinguins enrustidos
Comendo, vomitando e ruminando discursos transvestidos
De uma realidade-sob-manto-preto que existe somente
Na espetacularização de pobres vidas dormentes

O desejo é a profanação de tudo que é sagrado
Violentar-estuprar-bagunçar a mente do advogado
Amassar-rasgar-queimar-fumar os códigos
Expor as vísceras dessa justiça(zinha) de pródigos

E é com desgosto de quem vive sob a perversão d’anomia
Que hoje escrevo esse lixo de poesia
Feito com os últimos suspiros de palavras vazias

Amém!"


E do Direito Penal saíram as penas!

Das Penas

"Das penas a galinha se fez
Chocou o ovo no galinheiro
Ciscou o chão com altivez
Morreu no prato com grosso tempeiro"

"Das penas fracas a asa quebrou
E o anjo iluminado o inferno inaugurou
Com o fogo de sua raiva o crime inventou
E o homem, pobre deus enrustido, na terra penalizou"

E no Direito Civil os cafetões do Direito inventaram as obrigações de dar, mas a prostitição de Têmis não é novidade e não vale nenhum verso...

Bem, despeço-me agora, sem rodeios nem floreios. Apenas Tchau!

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Fitinha Vermelha

Muito embora os Mutantes tenham ilustrado o título desse blog - que pretende ser muito além (mas também) de um espaço para confissões de adolescente, um lugar de divagações sobre os indivíduos e suas manifestações, delírios, invenções e pulsões - abrirei as postagens com textos profundos de Eduardo Galeano:

"Delmira

A este quarto ela foi chamada pelo homem que tinha sido seu marido; e querendo tê-la, ele amou-a e matou-a e se matou.
Os jornais uruguaios de 1914 publicaram a foto do corpo que jaz(z) tombado junto à cama, Delmira abatida por dois tiros de revolver, nua como seus poemas, as meias caídas, toda despida de vermelho:
- Vamos mais longe na noite, vamos...
Delmira Agustini escrevia em transe. Tinha cantado as febres do amor sem disfarces pacatos, e tinha sido condenada pelos que castigam nas mulheres o que nos homens aplaudem, porque a castidade é dever feminino, e o desejo, como a razão, um privilégio masculino. No Uruguai, as leis caminham na frente das pessoas, que ainda separam a alma do corpo como se fossem a Bela e a Fera. De maneira que perante o cadáver de Delmira se derramam lágrimas e frases a propósito de tão sensível perda para as letras nacionais, mas no fundo os chorosos suspiram com alívio - a morta morta está, e é melhor assim.
Mas, morta está? Não serão sombra de sua voz e eco de seu corpo todos os amantes que ardem nas noites do mundo? Não lhe abrirão um lugarzinho nas noites do mundo para que cante sua boca desatada e dancem seus pés resplandecentes?"


E mais:

"Cultura do Terror/4

A extorsão,
o insulto,
a ameaça,
o cascudo,
a bofetada,
a surra,
o açoite,
o quarto escuro,
a ducha gelada,
o jejum obrigatório,
a comida obrigatória,
a proibição de sair,
a proibição de se dizer o que se pensa,
a proibição de fazer o que se sente,
e a humilhação pública
são alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais na vida da família. Para castigo à desobediência e exemplo de liberdade, a tradição familiar perpetua uma cultura do terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e contagia tudo com a peste do medo.
- Os direitos humanos deveriam começar em casa- comenta comigo, no Chile, Andrés Domingues"


Corta-se, assim, a fitinha vermelha da inauguração e do cabelo. Está na hora de deixar o cabelo crescer!
Até mais!