segunda-feira, 20 de abril de 2009

Contando um Conto!

Saindo da terapia que costumava freqüentar todas as quintas a tarde, seguia seu caminho sem rumo com a cabeça perturbada e sem vontade de olhar para o mundo. O mundo, naquela quinta-feira comum de uma semana regular, estava sem graça demais para ser observado. Mais sem graça que aquele dia, somente o prato de sopa insossa que tomara para preencher o estômago na noite anterior. Desde então não comera mais nada. Preferia encontrar-se cheio de nada. Pensava melhor.
Cabisbaixo, contemplava os paralelepípedos cobertos de musgo e chorume enquanto seguia com o passo desajeitado e o cabelo sujo. Pensava na consulta, na vida isolada, na reclusão por opção. Pensava que o amor estragara-lhe o gosto pelas coisas e pelas pessoas, e agora gastava seus honorários suados naquela sala fechada e quente, onde por horas a fio cavava na memória os traumas infantis e os problemas da fase fálica. Ao final, pouco concluía de si mesmo, mas continuava a voltar àquele sofá ensebado por puro comodismo.
Trabalhava de escrivão na seção de Protocolos de uma superintendência qualquer no centro da cidade. Gastava seu intelecto a cadastrar pastas e despachar processos internos. Sentia-se um macaco mecânico. Certa feita, enquanto inscrevia no registro geral de cadastros os dados do processo, tivera uma pequena alucinação.
De repente todos os números e letras rebelaram-se contra a ordem habitual das coisas, de modo que o 4 não admitia mais estar atrás do 5, e o Z confessou todas as suas angústias em ser sempre a última letra. Reuniram-se numa grande assembléia e decidiram acabar com as hierarquias, e assim nenhum número valeria mais que outro. Quanto ao alfabeto, destituíram as regras ortográficas e todas as letras passaram a poder ser acentuadas. Não era justo que apenas algumas tivessem que carregar o peso de um “til” ou mesmo de uma acento agudo, enquanto outras existiam complacentemente. Ademais, extinguiram as vírgulas, os pontos finais, os ponto - e – vírgulas e todos esses víboras censuradores castradores do som contínuo. Letras e Números de todo mundo: Uni-vos!
Desconcertado diante daquilo, – revoluções lhe causavam um certo tipo de pudor, uma vergonha estranha em ver as estruturas ruindo – resolvera que era obra de seu almoço – um xis-qualquer-coisa-qualquer- e lembrou que a comida, de modo geral, não lhe fazia bem. Mas voltemos à saída da terapia.
Caminhando, nosso caro personagem meteu a mão nos bolsos e elevou a cabeça aos céus. Pensava, triste, em como desperdiçara sua existência e sentiu saudades da vida que não tivera. Desconhecia a si próprio. O que tivera de si, a vida toda, não passava de uma mancha esparsa, um espectro amorfo de matéria orgânica. Uma coisa, afinal das contas.
Sentia-se voltar ao útero materno, na época em que não passava de uma bolha pulsante, uma pequena ameba em expansão, uma vida latente não existente e excitante para ser vivida. Desejava ser feto e dar a si próprio um reset. Quereria começar tudo outra vez, talvez não cometesse os mesmos erros, mas certamente erraria. E eram nesses outros erros que apostava seu querer. Quereria novos erros para ser nova pessoa.
Eis que enquanto flutuava no sabor de seus pensamentos, apareceu-lhe uma pequena pedra no meio caminho. No meio do caminho havia uma pedra, pensou, mas aquela pobre pedra era demasiado tosca para merecer protagonizar o fim de uma estória. No final, desviou e deixou a pedra ali, onde jazia morta e sem expectativa.
Com o ouvido aguçado, prestava atenção aos sons ao seu redor. Sentia o vento cortar-lhe a face e fazer na curva um “dó”. Escutava seus passos em ritmo crescente, retumbante, e sentia-se, de alguma forma, senhorial.
Dono do mundo e de sua vida.
Dono da música e da poesia.
Andava, e andando criava versos sustenidos em decassílabos menores. Alterava a melodia só para incluir o ruído de um bicho qualquer que passara voando. Inspirava o cheiro fétido das ruas, cheiro de lixo levemente adocicado, cheiro de gente levemente morta, cheio de gente levemente viva. Inspirava e não soltava mais. Esquecera o ar em seus pulmões. Sentia tédio até em respirar. No final, expirava e se sentia um idiota.
Caminhava contraindo os antebraços sobre o tronco e sentia o coração explodindo. Bomba de sangue e de amor. Para ele não sobrara mais que alguns fluidos, algumas poucas contrações desajeitadas e algumas lembranças afogadas. Coração sem-graça. Sem harmonia. Senha esquecida.
Caminhando em silêncio, parou ao som do nada.
Decidira.
Seria a última vez que vilipendiaria o mundo com a sua existência.
Findar-se-ia tudo naquela mesma tarde insossa de quinta-feira. O método ainda estava por vir. Mas e a vida? A vida não valia mais ser vivida.
Seguiu até o apartamento mofado de quinta categoria onde habitava tal qual inseto. No cômodo único sentia a sala morta e o criado mudo. Sentia-se parte de uma juventude embalsamada, afinal a morte não lhe traria muita diferença.
Então resolveu que seria por enforcamento, com a corda do varal que comprara na semana passada. Mas antes, um chá. De maracujá com camomila para morrer calmamente. Na vitrola, encostou a agulha num vinil velho de Blues. Mississipi John Hurt. Certamente a melhor música para se escutar antes de morrer. A melhor música para ser enterrada junto de si. Tomou o chá aos goles lentos enquanto se absorvia nos dedilhados suaves do velho Hurt. Terminou tudo e aos poucos foi preparando-se para se transformar num cadáver inerte.
Tomou a corda junto de si e inventou-lhe um nó forte o suficiente para agüentar seu peso. Entrelaçou-a entre o ferro exposto que havia no teto de sua sala. Lá no fundo Hurt entoava notas em homenagem à Irene.
Aos poucos apagou a luz, apanhou uma mesa e vagarosamente subiu sobre sua superfície coberta de farelos e cascas de queijo mofadas. De pé sobre a mesa, entrelaçou a corda em seu pescoço. Lá no fundo ouvia apenas a voz de Hurt que doía, doía, doía. Sentiu o coração disparar e o pulmão desconfiar que logo não passaria mais um fio de ar por entre seus alvéolos. Nos olhos, diante da janela, apenas o dia se refugiando no horizonte. Esquecera a cortina ocre aberta. Morreria ali, assim, de frente para o mundo. Estava montado o palco e faltava apenas um passo para definir o estado próximo das coisas. Naquele momento sentiu a eternidade. Mas lembrou que a eternidade é apenas um estado momentâneo do mundo.
Semi-cerrou os olhos e aos poucos sentiu a adrenalina acumular em seu sangue. Esperava apenas a dosagem certa para jogar-se sem carregar nenhum remorso. Começou a tremer. Suas mãos suadas não queriam desfazer-se da corda que já estava devidamente pronta para sufocar. O corpo inclinou-se, um passo, outro e...


A campainha tocou!

Estremeceu por completo! Fora o maior susto de sua vida. Mas não poderia morrer assim, com aquela campainha soando. E a campainha ressoou por três vezes, até que decidira atender logo de uma vez.
Abriu.
Era a vizinha nova. Queria uma xícara de açúcar emprestada para terminar a confecção do bolo que preparava.
- Sim, pois não, respondera.
Foi até a cozinha e despejou do saco uma pequena cascata branca sobre o recipiente.
- Obrigada. Mais tarde lhe trarei um pedaço, e saiu deixando o perfume.
Fechou a porta.
Quedou-se sobre o sofá. No fundo no fundo já sabia: A morte teria que esperar aquele “pedaço” de “bolo” “perfumado”...


Fim!

(Aplaudem os fungos do teclado e as bactérias do mouse!)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

I SHALL BE FREE



Trecho do riso:

"Well, my telephone rang it would not stop
It's President Kennedy callin' me up
He said, "My friend, Bob, what do we need to make the country grow" ?
I said, "My friend, John, "Brigitte Bardot,
Anita Ekberg
Sophia Loren"
Country'll grow."

Trecho da identificação:

"Well, I got a woman five feet short
She yells and hollers and squeals and snorts
She tickles my nose pats me on the head
Blows me over and kicks me out of bed
(She's a man eater
Meat grinder
Bad looser)."

Trecho da reflexão:

"Well, ask me why I'm drunk alla time
It levels my head and eases my mind
I just walk along and stroll and sing
I see better days and I do better things
(I catch dinosaurs
I make love to Elizabeth Taylor ...
Catch hell from Richard Burton !)."


I SHALL BE FREE!

domingo, 6 de abril de 2008

sábado, 12 de janeiro de 2008

Tirinha 2


Há! Essa aí veio de uma histórinha da Nati, que certa feita, contou-me a respeito de um primo cujas referências galináceas não passavam daquelas estampadas nas caixinhas de caldo Knor!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Tirinha 1


Parafraseando Drummond, tirarei o tédio, não da boca, mas deste blog que precisa, tanto quanto a boca, de um pouco de atenção!


Feliz Ano Novo, Natal, Aniversário e tá tá tá! Deu! Cumprimentos feitos, cá está uma tirinha de minha autoria. :D